Entrevistas com nossos pesquisadores: Lucia Mascaro
Lucia Helena Mascaro Sales faz parte do grupo minoritário de mulheres cientistas que atingiram os níveis mais altos da carreira acadêmica. Movida por uma paixão infindável pelo conhecimento e pela convicção de que a ciência não tem gênero, ela acabou conquistando posições de destaque em entidades nacionais e internacionais.
Lucia fez graduação (1984), mestrado (1988) e doutorado (1992) em Química na UFSCar. Depois de atuar como pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC-USP), ela se tornou, em 1998, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Em 2003, voltou à sua “alma mater” como professora. Na UFSCar, ela coordenou o curso de Licenciatura em Química de 2008 a 2013 e o Programa de Pós-graduação em Química de 2016 a 2019. Em 2017, chegou ao cargo de professora titular.
Em 2018, no início do CINE, começou a atuar como pesquisadora no desenvolvimento de materiais para a produção de hidrogênio por eletrólise – tema no qual já trabalhava desde 1994. Em 2024, assumiu a posição de vice-coordenadora do programa Low-Carbon Hydrogen (LCH2) do CINE.
Também em 2024, Lucia Mascaro ganhou o Prêmio “Mulheres Brasileiras na Química”, da American Chemical Society (ACS) e a Sociedade Brasileira de Química (SBQ), na categoria “Liderança na Academia”.
Em 2025, a cientista brasileira foi eleita vice-presidente da International Society of Electrochemistry (ISE), sociedade científica com 76 anos de existência, com mais de 3.000 sócios de cerca de 70 países
Em fevereiro de 2026, a cientista assumiu o mandato de membro do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), uma das principais agências de fomento do Brasil. Lucia foi nomeada pelo governador de São Paulo, que a escolheu a partir de uma lista tríplice, construída com a participação de 385 eleitores de 25 instituições de ensino superior e pesquisa do estado.
Lucia Mascaro é autora de mais de 200 artigos científicos publicados em periódicos indexados e de 13 capítulos de livros, além de ter orientado dezenas de trabalhos de pesquisa de estudantes de todos os níveis e de pós-doutorandos. Ela é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq no nível 1B.
Nesta entrevista, a professora Lucia conta como encontrou o seu lugar na ciência, reflete sobre as desigualdades de gênero no meio acadêmico e explica de que maneira o CINE está ajudando a desenvolver a indústria do hidrogênio de baixa emissão de carbono no Brasil.
Conte-nos como você se tornou uma cientista.
Conto isto entremeando com fatos pessoais, porque não vejo como dissociar completamente carreira e vida. Ambas nos moldam e influenciam os caminhos que traçamos, algumas vezes por escolha e outras por necessidade, mas sempre caminham juntas.
Nasci em uma cidade muito pequena, Ribeirão Bonito, em uma família na qual ninguém havia cursado o ensino superior. Por isso, não tive contato direto com o meio acadêmico ou com a ciência durante a infância. Ainda assim, sempre gostei muito de estudar e de ler, e, aos 12 anos, quando perdi repentinamente meu pai, passei a ver o estudo como uma forma de dar continuidade ao que ele sempre me ensinou. Foi nessa fase que comecei a dar meus primeiros passos em direção à ciência.
No ensino médio, ao ter contato com a Química, me apaixonei pela área e decidi que era aquilo que queria fazer, mesmo sem nunca ter entrado em um laboratório. Pouco tempo depois, minha mãe e eu nos mudamos para São Carlos e, em agosto de 1981, ingressei no curso de Química da UFSCar.
Desde então, nunca mais deixei de buscar conhecimento em uma área na qual sempre me senti muito bem. Durante a iniciação científica, o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado, muitas vezes duvidando se eu era capaz, percebi que poderia, sim, fazer parte daquele mundo.
Com o tempo, a transição de química para pesquisadora ocorreu de forma natural. A paixão pelo conhecimento encontrou na pesquisa o espaço ideal para desenvolver ideias e, principalmente, contribuir para a formação de novas pessoas. Ingressei como docente na UFPR em 1998, e em 2003 retornei à UFSCar. Em 2013 realizei um período de pesquisa na Universidade de Bath, no Reino Unido, e em 2017 tornei-me professora titular. Hoje posso dizer que minha realização está justamente na união entre ser química, pesquisadora e professora.
Quando e como você começou a atuar na área de energias renováveis?
Desde a minha iniciação científica trabalho com síntese e desenvolvimento de materiais, principalmente obtidos por técnicas eletroquímicas como a eletrodeposição. Estudei a aplicação destes materiais em diferentes sistemas, incluindo proteção contra corrosão, baterias, sensores e processos eletrocatalíticos.
Durante meu pós-doutorado no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP), em 1994, tive a oportunidade de trabalhar com o professor Avaca, que utilizava eletrodeposição de ligas metálicas para estudar a eletrólise da água e a produção de hidrogênio. Foi nesse momento que comecei a me envolver diretamente com o tema da produção de hidrogênio e com o desenvolvimento de catalisadores obtidos por métodos de baixo custo e potencialmente escaláveis, utilizando metais abundantes e não nobres.
Continuei desenvolvendo essa linha de pesquisa durante minha atuação na UFPR e posteriormente na UFSCar, com projetos financiados pelo CNPq e pela FAPESP, além da participação no CDMF, também voltado a materiais e energia. Com o avanço das discussões globais sobre transição energética e sustentabilidade, essa área ganhou ainda mais relevância.
Em 2017 fui convidada a integrar o CINE, no projeto financiado pela FAPESP em parceria com a Shell, inicialmente como pesquisadora associada ao programa DEC (Dense Energy Carriers). Ao longo dos anos, o trabalho com hidrogênio e energias renováveis se consolidou dentro do grupo. Atualmente, participo da segunda fase do projeto do CINE como vice-coordenadora (Co-PI) no programa de hidrogênio de baixo carbono e lidero o projeto de eletrólise alcalina da água. Nesta etapa buscamos não apenas desenvolver novos materiais, mas também testá-los em protótipos de laboratório, aproximando a pesquisa de aplicações reais e avançando em direção a níveis mais altos de maturidade tecnológica (TRL).
Você considera que foi mais difícil desenvolver sua carreira por ser mulher? Percebeu mudanças ao longo do tempo em direção à igualdade de gênero na ciência?
Não diria que foi necessariamente mais difícil desenvolver minha carreira por ser mulher, mas acredito que os degraus costumam ser mais largos para nós.
Muitas vezes é preciso dar mais passos para alcançar o mesmo patamar que um homem alcança com menos etapas. Na prática, isso significa que, em diversas situações, o reconhecimento pode vir mais lentamente para as mulheres, mesmo quando o trabalho realizado é equivalente ou até maior. Há muitos exemplos e estatísticas que mostram esse cenário; basta observar, por exemplo, o tempo médio que mulheres levam para atingir níveis mais altos de reconhecimento acadêmico, como o nível 1A da bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq.
Ao mesmo tempo, seria inverídico dizer que nunca enfrentei situações em que atitudes de colegas tenham tido um viés misógino ou machista. No entanto, esses episódios nunca diminuíram minha vontade de seguir na ciência. Sempre digo que não tenho problema algum em ser mulher no meu trabalho; o problema está, muitas vezes, na visão de quem ainda acredita que possa existir alguma diferença de capacidade ou desempenho em função do gênero.
Pode-se dizer que se tem buscado mudanças nas últimas décadas, tanto do ponto de vista cultural quanto institucional. Hoje existe maior conscientização sobre a importância da igualdade de oportunidades na ciência e mais iniciativas voltadas para ampliar a participação das mulheres. No entanto, ainda há desafios significativos. As estatísticas mostram que, embora as mulheres sejam maioria em muitos cursos de graduação e pós-graduação, sua presença diminui nos níveis mais altos da carreira científica. Por isso considero fundamental que mulheres estejam presentes em posições de liderança e participem ativamente das discussões sobre igualdade de oportunidades na ciência. Também é importante dar visibilidade a essas questões e mostrar, sobretudo para as novas gerações, que a ciência não tem gênero.
A ciência é construída por pessoas capazes, comprometidas com o conhecimento, com o trabalho coletivo e com o respeito. Para isso, é essencial um ambiente acadêmico mais justo, diverso e inclusivo.
Desde agosto de 2024, o Brasil tem uma lei (14.948) que define regras e benefícios para estimular a produção e comercialização de hidrogênio de baixa emissão de carbono no país. De que maneira o CINE, particularmente o programa LCH2, pode ajudar o país a avançar nesse sentido?
A Lei 14.948 foi um marco regulatório importante para o desenvolvimento dessa nova produção e comercialização de hidrogênio de baixa emissão de carbono no país. Nesse contexto, o CINE, por meio do programa LCH2, contribui em diferentes frentes. Uma delas é o avanço científico e tecnológico, com pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos catalisadores obtidos por técnicas de síntese simples e ambientalmente amigáveis, além do aprofundamento do entendimento da ciência fundamental que governa esses sistemas. Também buscamos avançar no conhecimento de tecnologias já consolidadas ou em fase de desenvolvimento, como é o caso dos eletrolisadores do tipo AEM, contribuindo para torná-los mais eficientes e viáveis.
Outro aspecto central é a formação de recursos humanos altamente qualificados. O programa conta com um número expressivo de bolsistas em todos os níveis, da graduação ao pós-doutorado. Muitos ex-bolsistas hoje atuam em empresas da área de hidrogênio ou integram grupos de pesquisa no exterior, o que demonstra o impacto da formação realizada pelo programa LCH2 no âmbito do CINE. Além disso, o trabalho desenvolvido tem alcançado reconhecimento internacional, refletido no grande número de publicações e revistas científicas de alto impacto na área de hidrogênio e energias renováveis. Dessa forma, o CINE e, particularmente o LCH2, contribui não apenas para o avanço do conhecimento, mas também para a consolidação de competências científicas e tecnológicas essenciais para que o Brasil avance de forma sólida na área de hidrogênio de baixa emissão de carbono.
Contato
Lucia Mascaro
UFSCar
