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Entrevista com Pauline Boeira, vice-diretora do CINE
25 de Junho de 2026
25 de Junho de 2026

Para impulsionar a transição energética, é tão importante dominar as tecnologias envolvidas quanto dispor dos recursos naturais necessários. Por isso, o CINE, que ajuda a transformar tecnologias promissoras em soluções viáveis e escaláveis, é um agente estratégico nesse processo.

Essa é a visão de Pauline Boeira, vice-diretora do CINE desde abril deste ano. Dona de uma sólida trajetória em empresas do setor de Energia, Pauline lidera atualmente o Programa de Combustíveis Avançados na área de Tecnologia da Shell Brasil – patrocinadora fundadora do CINE, junto à FAPESP, desde a criação do Centro em 2018.

Nesta entrevista, a nossa vice-diretora conta um pouco como desenvolveu a sua carreira profissional e quais foram as suas experiências com relação à equidade de gênero nesse percurso. Ela também compartilha a sua visão sobre a transição energética no Brasil e as suas expectativas sobre os próximos passos do CINE. No final da entrevista, Pauline deixa uma mensagem para os estudantes que participam dos projetos de pesquisa do Centro sobre as possibilidades que o setor de Energia oferece a profissionais capazes de transitar entre ciência, engenharia e aplicação industrial.

Você estudou Engenharia Química na Universidade Federal Fluminense e fez mestrado na Unicamp nessa mesma área antes de iniciar uma carreira profissional no setor de Energia. O que a levou a trabalhar nesse setor? De que forma essa formação universitária se conecta com a sua carreira profissional?

Durante a minha graduação, o contexto do Rio de Janeiro nos anos 90 concentrava um mercado muito forte de Óleo & Gás e Petroquímica, e eu tive a oportunidade de estagiar em grandes companhias destes setores, o que teve grande influência. Essa exposição prática tornou muito natural o meu interesse pelo setor de Energia. Estagiei no setor de desenvolvimento de produtos na indústria petroquímica, aprendi sobre a área de polímeros e tive meu primeiro contato com plantas industriais e com inovação tecnológica aplicada — desde o entendimento da operação industrial até o trabalho em plantas piloto, que são o elo crítico entre a pesquisa e a implementação em grande escala.

Ao final da minha graduação, em 1996, tive uma experiência que foi determinante para a minha trajetória. Fui aprovada no programa de mestrado da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e escolhi a área de desenvolvimento de processos químicos. Minha especialização nesta área consolidou a base técnica que eu vinha construindo.

Após o mestrado, ingressei como engenheira de processo no projeto executivo dos topsides de um dos FPSOs da Petrobras. Esse projeto foi a porta de entrada para o setor de Energia e marcou o início da minha atuação profissional nessa indústria.

O setor de energia se caracteriza por ser majoritariamente masculino, com uma participação feminina de cerca de 30% na força de trabalho em geral e de apenas 5,5% em cargos de liderança (números do Brasil). Conte-nos brevemente como você foi construindo a sua carreira no setor e comente se experimentou dificuldades específicas ligadas ao fato de ser mulher.

Ao olhar de forma geral, ainda vemos que a presença feminina em áreas técnicas e na indústria de Óleo & Gás, principalmente em funções operacionais e de liderança, é menor quando comparada à masculina. Curiosamente, a área de processos é uma área com forte presença feminina — ao longo de mais de 25 anos de carreira, trabalhei com muito mais engenheiras do que engenheiros de processo, o que mostra que há espaços em que essa representatividade já é mais forte.

Eu comecei minha carreira em um ambiente bastante desafiador, um estaleiro. Foi uma experiência intensa, mas tive muita sorte de contar com gestores que me apoiavam e onde nenhum tipo de desrespeito ou discriminação era tolerado. Além disso, no projeto em que eu trabalhava, mais da metade das posições de liderança era ocupada por mulheres — o que foge do padrão da indústria, mas foi extremamente marcante para mim. Ter vivido esse contexto logo no início da minha trajetória me mostrou, de forma muito concreta, que há, sim, espaço para mulheres nesse setor. Mais do que isso, reforçou que esse espaço pode — e deve — ser conquistado com base em capacidade e competência.

Essa visão se mantém e é reforçada no ambiente corporativo da Shell, onde a pauta de equidade de gênero é tratada de forma estruturada e estratégica. Esse compromisso não é apenas declaratório — ele é acompanhado por indicadores, inserido nos objetivos da liderança e conectado ao desempenho do negócio. Dessa forma, a promoção da diversidade deixa de ser apenas uma agenda e passa a ser um elemento essencial para geração de valor. Além de proporcionar mais oportunidades de desenvolvimento, reconhecimento e crescimento profissional em um ambiente mais justo e inclusivo.

Hoje, olhando para trás, acredito que exemplos positivos como esse, aliados a ambientes inclusivos e lideranças que promovam respeito e equidade, são essenciais para acelerar a transformação da indústria e ampliar, de forma consistente, a presença feminina em todos os níveis.

Qual é a sua visão do status da transição energética, particularmente no Brasil? E qual é a importância de iniciativas como o CINE nesse contexto?

Eu vejo a transição energética como um processo que já está acontecendo — não é mais uma discussão de futuro, mas uma transformação real, que avança em ritmos diferentes dependendo da região.

No caso do Brasil, acredito que temos uma posição muito privilegiada. Nossa matriz energética é muito favorável e temos uma combinação única de recursos naturais — sol, vento, biomassa — que dá ao país um enorme potencial não só para participar dessa transição, mas para liderá-la.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que essa transição não é uma substituição simples de uma fonte por outra. Estamos falando de uma mudança estrutural no sistema energético, que vai exigir convivência entre diferentes soluções por bastante tempo.

Nesse cenário, iniciativas como o CINE são fundamentais. O Centro atua na interface entre ciência, tecnologia e aplicação industrial. Ele trabalha no desenvolvimento de novas soluções em geração e armazenamento de energia, ajudando a transformar tecnologias promissoras em
soluções viáveis e escaláveis.

O que eu acho particularmente relevante no CINE é essa visão integrada — não é só pesquisa de ponta, mas também formação de pessoas, colaboração com a indústria e transferência de tecnologia. Porque, no fim, a transição energética não vai ser definida apenas por quem tem recursos naturais, mas por quem consegue desenvolver e dominar as tecnologias que agregam valor a esses recursos.

Quais são as suas expectativas com relação ao CINE enquanto vice-diretora?

Minhas expectativas com relação ao CINE são muito positivas. O Centro já construiu uma base extremamente sólida, tanto do ponto de vista científico quanto na sua capacidade de articulação com a indústria, especialmente com o apoio da Shell, que tem sido um parceiro estratégico fundamental desde a criação do Centro. Esse apoio não apenas viabiliza a continuidade das pesquisas, mas também contribui diretamente para orientar o CINE em direção a desafios reais da indústria energética, fortalecendo a relevância e aplicabilidade das soluções desenvolvidas.

O próximo passo, na minha visão, é ampliar ainda mais o impacto do que já vem sendo feito — principalmente na transição de conhecimento para aplicação. Ou seja, avançar na maturidade tecnológica das soluções desenvolvidas, aproximando-as cada vez mais da escala industrial e do mercado. Nesse contexto, a conexão com a Shell é particularmente importante, pois permite acelerar essa trajetória ao trazer visão de negócio, direcionamento estratégico e oportunidades concretas de implementação.

O CINE já desempenha um papel fundamental na formação de profissionais altamente qualificados e acredito que podemos potencializar ainda mais essa contribuição, preparando talentos com uma visão sistêmica, capazes de atuar em um ambiente complexo, interdisciplinar e em constante transformação.

Por fim, espero poder contribuir ativamente para ampliar a relevância do CINE como um agente estratégico na transição energética, fortalecendo seu papel na geração de inovação e no desenvolvimento de tecnologias que possam, de fato, sair do laboratório e impactar a realidade. A parceria com a Shell é um elemento chave nesse processo, ao conectar ciência, tecnologia e aplicação em larga escala.

O CINE tem cerca de 130 estudantes de graduação, mestrado e doutorado que desenvolvem pesquisas do centro. Com base na sua experiência, o que você diria a esses estudantes sobre as possibilidades de trabalho no setor de Energia?

Eu diria que eles estão entrando em uma das áreas mais dinâmicas e cheias de oportunidades hoje. A transição energética está gerando uma transformação profunda, que vai muito além de uma mudança de fontes — ela envolve novos processos, novos modelos de negócio e, principalmente, novas tecnologias.

Isso significa que as possibilidades de atuação são muito amplas. Há espaço para quem quer trabalhar com energia renovável, mas também com combustíveis avançados, hidrogênio, captura de carbono, armazenamento de energia, digitalização e otimização de processos. E algo que considero muito importante: o setor precisa cada vez mais de profissionais com visão interdisciplinar, capazes de transitar entre ciência, engenharia e aplicação industrial.

O fato de os estudantes estarem trabalhando em problemas reais, conectados à fronteira do conhecimento e em colaboração com a indústria, os coloca em uma posição diferenciada. Eles já estão vivenciando, na prática, o tipo de desafio que encontrarão no mercado.

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