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Entrevista com Jilian de Freitas, vice-coordenadora do programa Geração de Energia
17 de Setembro de 2026
17 de Setembro de 2026

Jilian Nei de Freitas era ainda uma estudante de graduação da UNICAMP quando tomou decisões que direcionaram a sua trajetória profissional.

Naquele momento, no ano 2000, buscando realizar o seu desejo de infância de ser cientista e construir o futuro, ela decidiu começar uma iniciação científica em algum tema de fronteira cujos resultados pudessem ser aplicados em produtos. Dessa forma, ela acabou atuando no desenvolvimento de tecnologias emergentes para células solares.

Após concluir a graduação em Química pela UNICAMP em 2002, Jilian continuou fazendo pesquisa na área de células solares emergentes, tanto no mestrado em Química Inorgânica, concluído em 2005 pela UNICAMP, quanto no doutorado em Ciências, realizado também na UNICAMP, com estágio no Linz Institute for Organic Solar Cells (Áustria).

Entre 2010 e 2011, ela desenvolveu um projeto de pós-doutorado no Laboratório de Nanotecnologia e Energia Solar da UNICAMP. Nesse período, Jilian voltou a viajar ao exterior para realizar estágios de pesquisa de curta duração na University of the Witwatersrand (África do Sul), na Wayne State University (EUA) e no Imperial College (Reino Unido). Depois do pós-doc, ela resolveu ter uma experiência no setor produtivo e atuou como pesquisadora em uma startup e em uma empresa multinacional.

Em 2013, a cientista ingressou no Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer, localizado em Campinas (SP), onde ainda trabalha com pesquisa na função de tecnologista sênior.

Pesquisadora no CINE desde 2018, Jilian coordena, desde 2025, o braço de energia solar do programa Geração de Energia. No programa, ela também atua como líder de projetos dedicados a desenvolver rotas de fabricação de células solares de perovskita que sejam interessantes para a indústria nacional.

Além disso, em paralelo à sua profissão científica, Jilian sempre se dedicou a alimentar seu lado artístico por meio de cursos e apresentações de música e dança.

Leia a nossa entrevista com a esta pesquisadora do CINE e saiba mais sobre a sua atuação e a visão dela sobre o meio acadêmico, o setor produtivo e as artes.

O que a motivou a fazer graduação em Química e a seguir a carreira de pesquisadora? Você se inspirou em outras mulheres cientistas?

Eu cresci com um pai que gostava muito de ler livros de ficção científica, e uma mãe que atuava como pesquisadora na área de Educação. Ainda como criança, me encantei de uma forma bem lúdica com a possibilidade de ser cientista e trabalhar em atividades futurísticas. Quando chegou o momento do vestibular, escolhi Química por ser, dentro da ciência, um tema com o qual eu tinha bastante facilidade na escola. Já no início do segundo ano do curso de Química da UNICAMP, em janeiro de 2000, resolvi começar meu contato com o meio de pesquisas científicas, partindo para a realização de uma Iniciação Científica (I.C.). Resolvi que queria atuar numa área de fronteira tecnológica, combinando ciência de ponta com conceitos aplicáveis a produtos industriais. Foi nessa hora que me indicaram o professor Marco-Aurélio De Paoli, que trabalhava com os famosos “polímeros condutores” (os quais renderam o prêmio Nobel de Química no ano 2000!) em uma série de aplicações tecnológicas: janelas eletrocrômicas, transistores orgânicos, células solares, entre outras. Dentre as linhas de pesquisa apresentadas pelo professor De Paoli em nossa conversa inicial, me interessei pela energia fotovoltaica e células solares emergentes – na época estavam em alta as células de TiO2/corante, também conhecidas por células de Gratzel. Foi nesse contexto que conheci as atuais professoras do IQ-UNICAMP, Ana Flávia Nogueira e Claudia Longo, que fazem parte do CINE e, naquela época, estavam fazendo doutorado e pós-doutorado, respectivamente, no grupo do professor De Paoli. Ambas atuaram como coorientadoras da minha I.C., e considero que muito do que aprendi sobre as células solares, sobre o universo de pesquisa, metodologia científica e redação de textos científicos, devo a elas. Porém, talvez até mais importante do que esses aspectos, foi ver de perto a paixão com que as duas pesquisadoras desenvolviam seus projetos científicos. Foi um privilégio ver o início da carreira dessas pesquisadoras, que certamente foram minhas principais inspirações profissionais.

Você tem experiência como pesquisadora tanto no meio acadêmico quanto em empresas – dois caminhos possíveis para estudantes da área de Exatas e Tecnológicas. Comente as particularidades dessas duas experiências profissionais.

Ao final do segundo ano de pós-doutorado, no início de 2012, resolvi diversificar a minha experiência e atuar em empresas. Inicialmente me juntei à equipe da startup Tezca, fundada pelo Dr. Agnaldo de Souza Gonçalves e incubada na Ciatec, em Campinas, para atuar no desenvolvimento de células solares flexíveis em substratos metálicos. Naquela época, as ações relacionadas ao empreendedorismo científico e à criação de startups deep tech não recebiam o mesmo apoio e incentivo que recebem hoje em dia das agências de fomento. Adicionalmente, o Brasil estava apenas iniciando a regulamentação de seu setor fotovoltaico, havendo pouco incentivo financeiro para este tipo de energia naquela época. Enquanto estive na Tezca pude testemunhar as inúmeras dificuldades enfrentadas por quem estava tentando desbravar o setor, muito incipiente naquele momento. Aquela realidade difere da atual em vários aspectos. Por exemplo, hoje o financiamento dado pela FAPESP para os programas PIPE é bem maior, assim como o mercado de geração de energia fotovoltaica cresceu significativamente no Brasil e segue em expansão. Há um entendimento mais claro dos diferentes atores da sociedade sobre a necessidade de se investir em energias renováveis, atuar na transição energética e na busca por independência tecnológica, o que inclui entre as ações o incentivo às deep techs. Na sequência da atuação na Tezca, tive oportunidade de trabalhar na DuPont, em Paulínia (SP), no desenvolvimento de um novo tipo de produto para o setor agrícola. Foi um período interessante, onde pude ver as diferenças da dinâmica de trabalho na grande corporação. Observei que o trabalho acontecia de modo mais focado, com menor grau de liberdade para alterações de rotas no meio do caminho, com o foco bastante orientado ao desenvolvimento do produto. Neste período tive aprendizados que trago até hoje na minha carreira, relacionados a pontos que podem ficar deficitários em uma formação puramente acadêmica: tomar decisões baseadas em avaliação dos custos, ações orientadas a resultados práticos, e a importância de parcerias e redes de networking. De um lado, temos no meio acadêmico uma liberdade de criação muito maior, o que contribui para a elaboração de soluções disruptivas. No outro lado, temos um pragmatismo nas ações dentro do setor produtivo, que talvez limite a criatividade, porém viabiliza a conversão de ideias em coisas práticas. No meio acadêmico, o cientista pode exercer de forma muito mais livre sua criatividade. Contudo, justamente por isso, às vezes o conhecimento fica difuso e acaba não sendo traduzido para soluções práticas. Daí a importância de combinar os dois mundos se quisermos gerar e emplacar soluções realmente inovadoras.

Você faz dança, escreve letras de música… Conte-nos um pouco sobre seu lado artístico.

Comecei a dançar ainda quando criança. Na adolescência fiz aulas de balé clássico, balé moderno, jazz, piano e teclado. Sempre gostei de música e dança e, se pudesse, investiria ainda mais tempo nisso. A arte sempre fez parte da minha vida, até mesmo na forma de arte marcial (sou faixa ponta vermelha de taekwondo). Ao longo dos anos em que estava me formando como cientista, fiz diversos cursos de dança: dança de salão, dança cigana, hip-hop, flamenco, dança do ventre. Também fiz duas oficinas de composição de música com o cantor e compositor Leoni (sim, aquele que compôs a música “Garotos”!). Antigamente eu entendia essas atividades como uma fuga do lado científico para o lado artístico, tipo uma válvula de escape. Como se um fosse o lado sério e o outro, o lado divertido. Porém, com o passar dos anos e aumento da minha vivência tanto na Ciência quanto nas Artes, entendi que elas são muito parecidas. Nas duas fazemos uso da nossa expressão criativa, trazendo a base que absorvemos do meio externo e combinando com insights próprios. Apenas se traduzem em resultados diferentes, mas diria que a essência delas é bem similar. Além disso, hoje em dia, tendo convivido com profissionais bem sucedidos que vivem de música ou dança, notei mais um ponto em comum entre Artes e Ciências: a criatividade é essencial em ambas, porém sem disciplina e tenacidade não se chega a lugares interessantes.

 Você é vice-coordenadora do programa Geração de Energia do CINE. Comente quais são os grandes objetivos e os principais desafios do programa na área de energia solar.

Dentro do CINE, mais especificamente no braço de energia solar do programa Geração de Energia, os principais desafios em que estamos atuando podem ser resumidos em três eixos:

– Compreensão dos fenômenos responsáveis pela degradação nas células de perovskita, buscando o aumento do tempo de vida dessas células.

– Desenvolvimento de materiais e processos para confecção de células de maior área, ou minimódulos, com tecnologia nacional.

– Aumento da eficiência de conversão de energia das células.

Dentro do primeiro eixo, destaco as pesquisas realizadas pelo grupo da professora Ana Flávia Nogueira, com emprego de técnicas envolvendo luz Síncrotron, no Sirius, e experimentos in situ, as quais têm sido amplamente reconhecidas no cenário internacional como de grande contribuição ao avanço do entendimento dos mecanismos que causam redução de estabilidade da tecnologia de perovskitas.

Dentro do segundo eixo, estamos investindo na busca por transformar conhecimento em produto – neste caso, buscando demonstrar a possibilidade de fazer uma célula solar de perovksita com uso de insumos nacionais, e processos escaláveis de baixo custo, na busca por rotas de fabricação que possam ser de interesse da indústria nacional, envolvendo baixo CAPEX e OPEX.

Já no terceiro eixo, entre as abordagens empregadas na busca por aumento da geração de energia dessas células, destaco o uso de gerenciamento de fótons (ou seja, uso de materiais conversores ascendentes ou descendentes de energia, e o uso de quantum dots) para ajustar o aproveitamento da luz absorvida pela perovskita, buscando assim aumentar a quantidade de elétrons gerados pelo dispositivo. Outra abordagem de destaque é o uso da técnica de evaporação térmica para deposição da camada de perovskita, a qual deve possibilitar a formação de filmes com menor quantidade de defeitos nos contornos de grãos e nas interfaces, possibilitando, assim, maior reprodutibilidade entre os dispositivos e maior geração de corrente elétrica.

Acredito que as pesquisas realizadas no CINE carregam oportunidades reais para capacitar nosso país em diferentes áreas tecnológicas de relevância, tanto para a transição energética quanto para a soberania, inclusive com possibilidades de customizar soluções para melhor atender as demandas nacionais.

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