Artigo com participação do CINE destaca potencial das células solares de perovskita no espaço
Uma colaboração de pesquisadores do CINE com cientistas da China e da Rússia traz um olhar diferenciado sobre o desafio de inserir as células solares de perovskita no mercado fotovoltaico.
Em um artigo de perspectiva recentemente publicado no periódico científico Energy Advances, os autores destacam que os mesmos materiais da família das perovskitas que se degradam rapidamente no planeta Terra em condições ambientais moderadas, apresentam estabilidade excepcional no espaço em condições extremas.
É amplamente conhecido que as células solares de perovskita já atingiram níveis muito altos de eficiência na conversão da luz do Sol em eletricidade, mas esbarram na sua baixa durabilidade, ocasionada pela degradação que a camada de perovskita sofre quando é exposta ao ambiente. Essa limitação tem incentivado numerosos trabalhos que propõem diversas estratégias para aumentar a estabilidade das perovskitas.
Contudo, muito menos divulgado é o conhecimento destacado neste novo artigo, que mostra a resistência das perovskitas frente às altas doses de radiação e à enorme amplitude térmica do espaço. Essas características, somadas à leveza e flexibilidade das células solares de perovskita, tornam esses dispositivos muito promissores para fornecer energia em satélites, por exemplo.
“Nesta colaboração com grupos de pesquisa da China e da Rússia, trabalhamos juntos com o objetivo de abordar tópicos na fronteira do conhecimento em perovskita, como as aplicações no espaço e a questão da estabilidade ambiente”, diz a professora Ana Flávia Nogueira (Unicamp), pesquisadora e diretora do CINE. “Como no espaço não tem água, a perovskita não tem o problema da baixa estabilidade por umidade que tem na Terra, e ela é bem resiliente à radiação cósmica”, explica a cientista, que é uma das pioneiras no estudo de células solares de perovskita no Brasil e se tornou referência internacional no assunto.
Ana Flávia é autora correspondente do artigo de perspectiva, cujo primeiro autor é André Fonseca, pós-doutorando no CINE. Publicado em março deste ano, o paper já foi destacado pela revista entre os melhores de 2026 com base nos pareceres excepcionalmente positivos recebidos durante a revisão por pares, juntamente com a avaliação do editor do periódico sobre a relevância e o impacto do artigo.
A ideia do paper surgiu em um workshop online, realizado em junho de 2025, que reuniu grupos do Brasil, China e Rússia que se dedicam à pesquisa em perovskitas. O workshop ocorreu no contexto de um projeto aprovado em um edital do CNPq voltado a consolidar colaborações entre países do BRICS.
O BRICS é um agrupamento de grandes economias emergentes, principalmente, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Em conjunto, esses países representam quase 25% do produto interno bruto global, além de serem importantes produtores e consumidores de energia, sendo agentes fundamentais da transição energética. Em 2024, a coalizão gerou 51% da energia solar do mundo, marcando um aumento muito significativo em relação aos 15% registrados uma década antes.
“Espero que essa colaboração com nossos colegas do BRICS continue e avance ainda mais”, diz a diretora do CINE. “Somos todos países em desenvolvimento e temos trazido uma contribuição muito grande na área de perovskita”, completa ela.
De acordo com a cientista, o CINE está iniciando uma nova linha de pesquisa nessa área. “Agora vamos desenvolver haletos de perovskita por métodos físicos, como a evaporação térmica e o sputtering”, anuncia ela. “Além disso, vamos produzir células solares na configuração tandem, que é aquela em que a perovskita é colocada sobre uma célula de silício. Isso é uma novidade aqui no país”, conclui Ana Flávia.
A íntegra do artigo de perspectiva, intitulado “Perovskites Beyond Efficiency: Stability Challenges from Space to Earth“, pode ser baixada sem custo dentro da coleção “Energy Advances Recent HOT Articles”, disponível aqui.
Contato
Ana Flávia Nogueira
UNICAMP
