{"id":13501,"date":"2026-09-17T14:51:17","date_gmt":"2026-09-17T17:51:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cine.org.br\/?p=13501"},"modified":"2026-09-17T18:05:47","modified_gmt":"2026-09-17T21:05:47","slug":"entrevista-com-jiliannei-de-freitas-vice-coordenadora-do-programa-geracao-de-energia-do-cine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cine.org.br\/pb\/entrevista-com-jiliannei-de-freitas-vice-coordenadora-do-programa-geracao-de-energia-do-cine\/","title":{"rendered":"Entrevista com Jilian de Freitas, vice-coordenadora do programa Gera\u00e7\u00e3o de Energia"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Jilian Nei de Freitas era ainda uma estudante de gradua\u00e7\u00e3o da UNICAMP quando tomou decis\u00f5es que direcionaram a sua trajet\u00f3ria profissional.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Naquele momento, no ano 2000, buscando realizar o seu desejo de inf\u00e2ncia de ser cientista e construir o futuro, ela decidiu come\u00e7ar uma inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em algum tema de fronteira cujos resultados pudessem ser aplicados em produtos. Dessa forma, ela acabou atuando no desenvolvimento de tecnologias emergentes para c\u00e9lulas solares.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ap\u00f3s concluir a gradua\u00e7\u00e3o em Qu\u00edmica pela UNICAMP em 2002, Jilian continuou fazendo pesquisa na \u00e1rea de c\u00e9lulas solares emergentes, tanto no mestrado em Qu\u00edmica Inorg\u00e2nica, conclu\u00eddo em 2005 pela UNICAMP, quanto no doutorado em Ci\u00eancias, realizado tamb\u00e9m na UNICAMP, com est\u00e1gio no Linz Institute for Organic Solar Cells (\u00c1ustria).<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Entre 2010 e 2011, ela desenvolveu um projeto de p\u00f3s-doutorado no Laborat\u00f3rio de Nanotecnologia e Energia Solar da UNICAMP. Nesse per\u00edodo, Jilian voltou a viajar ao exterior para realizar est\u00e1gios de pesquisa de curta dura\u00e7\u00e3o na University of the Witwatersrand (\u00c1frica do Sul), na Wayne State University (EUA) e no Imperial College (Reino Unido). Depois do p\u00f3s-doc, ela resolveu ter uma experi\u00eancia no setor produtivo e atuou como pesquisadora em uma startup e em uma empresa multinacional.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2013, a cientista ingressou no Centro de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o (CTI) Renato Archer, localizado em Campinas (SP), onde ainda trabalha com pesquisa na fun\u00e7\u00e3o de tecnologista s\u00eanior.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pesquisadora no CINE desde 2018, Jilian coordena, desde 2025, o bra\u00e7o de energia solar do programa Gera\u00e7\u00e3o de Energia. No programa, ela tamb\u00e9m atua como l\u00edder de projetos dedicados a desenvolver rotas de fabrica\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas solares de perovskita que sejam interessantes para a ind\u00fastria nacional.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Al\u00e9m disso, em paralelo \u00e0 sua profiss\u00e3o cient\u00edfica, Jilian sempre se dedicou a alimentar seu lado art\u00edstico por meio de cursos e apresenta\u00e7\u00f5es de m\u00fasica e dan\u00e7a.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Leia a nossa entrevista com a esta pesquisadora do CINE e saiba mais sobre a sua atua\u00e7\u00e3o e a vis\u00e3o dela sobre o meio acad\u00eamico, o setor produtivo e as artes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><em><strong>O que a motivou a fazer gradua\u00e7\u00e3o em Qu\u00edmica e a seguir a carreira de pesquisadora? Voc\u00ea se inspirou em outras mulheres cientistas?<\/strong><\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Eu cresci com um pai que gostava muito de ler livros de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e uma m\u00e3e que atuava como pesquisadora na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o. Ainda como crian\u00e7a, me encantei de uma forma bem l\u00fadica com a possibilidade de ser cientista e trabalhar em atividades futur\u00edsticas. Quando chegou o momento do vestibular, escolhi Qu\u00edmica por ser, dentro da ci\u00eancia, um tema com o qual eu tinha bastante facilidade na escola. J\u00e1 no in\u00edcio do segundo ano do curso de Qu\u00edmica da UNICAMP, em janeiro de 2000, resolvi come\u00e7ar meu contato com o meio de pesquisas cient\u00edficas, partindo para a realiza\u00e7\u00e3o de uma Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (I.C.). Resolvi que queria atuar numa \u00e1rea de fronteira tecnol\u00f3gica, combinando ci\u00eancia de ponta com conceitos aplic\u00e1veis a produtos industriais. Foi nessa hora que me indicaram o professor Marco-Aur\u00e9lio De Paoli, que trabalhava com os famosos \u201cpol\u00edmeros condutores\u201d (os quais renderam o pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica no ano 2000!) em uma s\u00e9rie de aplica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas: janelas eletrocr\u00f4micas, transistores org\u00e2nicos, c\u00e9lulas solares, entre outras. Dentre as linhas de pesquisa apresentadas pelo professor De Paoli em nossa conversa inicial, me interessei pela energia fotovoltaica e c\u00e9lulas solares emergentes \u2013 na \u00e9poca estavam em alta as c\u00e9lulas de TiO2\/corante, tamb\u00e9m conhecidas por c\u00e9lulas de Gratzel. Foi nesse contexto que conheci as atuais professoras do IQ-UNICAMP, Ana Fl\u00e1via Nogueira e Claudia Longo, que fazem parte do CINE e, naquela \u00e9poca, estavam fazendo doutorado e p\u00f3s-doutorado, respectivamente, no grupo do professor De Paoli. Ambas atuaram como coorientadoras da minha I.C., e considero que muito do que aprendi sobre as c\u00e9lulas solares, sobre o universo de pesquisa, metodologia cient\u00edfica e reda\u00e7\u00e3o de textos cient\u00edficos, devo a elas. Por\u00e9m, talvez at\u00e9 mais importante do que esses aspectos, foi ver de perto a paix\u00e3o com que as duas pesquisadoras desenvolviam seus projetos cient\u00edficos. Foi um privil\u00e9gio ver o in\u00edcio da carreira dessas pesquisadoras, que certamente foram minhas principais inspira\u00e7\u00f5es profissionais.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><em><strong>Voc\u00ea tem experi\u00eancia como pesquisadora tanto no meio acad\u00eamico quanto em empresas &#8211; dois caminhos poss\u00edveis para estudantes da \u00e1rea de Exatas e Tecnol\u00f3gicas. Comente as particularidades dessas duas experi\u00eancias profissionais.<\/strong><\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ao final do segundo ano de p\u00f3s-doutorado, no in\u00edcio de 2012, resolvi diversificar a minha experi\u00eancia e atuar em empresas. Inicialmente me juntei \u00e0 equipe da startup Tezca, fundada pelo Dr. Agnaldo de Souza Gon\u00e7alves e incubada na Ciatec, em Campinas, para atuar no desenvolvimento de c\u00e9lulas solares flex\u00edveis em substratos met\u00e1licos. Naquela \u00e9poca, as a\u00e7\u00f5es relacionadas ao empreendedorismo cient\u00edfico e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de startups deep tech n\u00e3o recebiam o mesmo apoio e incentivo que recebem hoje em dia das ag\u00eancias de fomento. Adicionalmente, o Brasil estava apenas iniciando a regulamenta\u00e7\u00e3o de seu setor fotovoltaico, havendo pouco incentivo financeiro para este tipo de energia naquela \u00e9poca. Enquanto estive na Tezca pude testemunhar as in\u00fameras dificuldades enfrentadas por quem estava tentando desbravar o setor, muito incipiente naquele momento. Aquela realidade difere da atual em v\u00e1rios aspectos. Por exemplo, hoje o financiamento dado pela FAPESP para os programas PIPE \u00e9 bem maior, assim como o mercado de gera\u00e7\u00e3o de energia fotovoltaica cresceu significativamente no Brasil e segue em expans\u00e3o. H\u00e1 um entendimento mais claro dos diferentes atores da sociedade sobre a necessidade de se investir em energias renov\u00e1veis, atuar na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e na busca por independ\u00eancia tecnol\u00f3gica, o que inclui entre as a\u00e7\u00f5es o incentivo \u00e0s deep techs. Na sequ\u00eancia da atua\u00e7\u00e3o na Tezca, tive oportunidade de trabalhar na DuPont, em Paul\u00ednia (SP), no desenvolvimento de um novo tipo de produto para o setor agr\u00edcola. Foi um per\u00edodo interessante, onde pude ver as diferen\u00e7as da din\u00e2mica de trabalho na grande corpora\u00e7\u00e3o. Observei que o trabalho acontecia de modo mais focado, com menor grau de liberdade para altera\u00e7\u00f5es de rotas no meio do caminho, com o foco bastante orientado ao desenvolvimento do produto. Neste per\u00edodo tive aprendizados que trago at\u00e9 hoje na minha carreira, relacionados a pontos que podem ficar deficit\u00e1rios em uma forma\u00e7\u00e3o puramente acad\u00eamica: tomar decis\u00f5es baseadas em avalia\u00e7\u00e3o dos custos, a\u00e7\u00f5es orientadas a resultados pr\u00e1ticos, e a import\u00e2ncia de parcerias e redes de networking. De um lado, temos no meio acad\u00eamico uma liberdade de cria\u00e7\u00e3o muito maior, o que contribui para a elabora\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es disruptivas. No outro lado, temos um pragmatismo nas a\u00e7\u00f5es dentro do setor produtivo, que talvez limite a criatividade, por\u00e9m viabiliza a convers\u00e3o de ideias em coisas pr\u00e1ticas. No meio acad\u00eamico, o cientista pode exercer de forma muito mais livre sua criatividade. Contudo, justamente por isso, \u00e0s vezes o conhecimento fica difuso e acaba n\u00e3o sendo traduzido para solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. Da\u00ed a import\u00e2ncia de combinar os dois mundos se quisermos gerar e emplacar solu\u00e7\u00f5es realmente inovadoras.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><em><strong>Voc\u00ea faz dan\u00e7a, escreve letras de m\u00fasica\u2026 Conte-nos um pouco sobre seu lado art\u00edstico.<\/strong><\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Comecei a dan\u00e7ar ainda quando crian\u00e7a. Na adolesc\u00eancia fiz aulas de bal\u00e9 cl\u00e1ssico, bal\u00e9 moderno, jazz, piano e teclado. Sempre gostei de m\u00fasica e dan\u00e7a e, se pudesse, investiria ainda mais tempo nisso. A arte sempre fez parte da minha vida, at\u00e9 mesmo na forma de arte marcial (sou faixa ponta vermelha de taekwondo). Ao longo dos anos em que estava me formando como cientista, fiz diversos cursos de dan\u00e7a: dan\u00e7a de sal\u00e3o, dan\u00e7a cigana, hip-hop, flamenco, dan\u00e7a do ventre. Tamb\u00e9m fiz duas oficinas de composi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica com o cantor e compositor Leoni (sim, aquele que comp\u00f4s a m\u00fasica \u201cGarotos\u201d!). Antigamente eu entendia essas atividades como uma fuga do lado cient\u00edfico para o lado art\u00edstico, tipo uma v\u00e1lvula de escape. Como se um fosse o lado s\u00e9rio e o outro, o lado divertido. Por\u00e9m, com o passar dos anos e aumento da minha viv\u00eancia tanto na Ci\u00eancia quanto nas Artes, entendi que elas s\u00e3o muito parecidas. Nas duas fazemos uso da nossa express\u00e3o criativa, trazendo a base que absorvemos do meio externo e combinando com insights pr\u00f3prios. Apenas se traduzem em resultados diferentes, mas diria que a ess\u00eancia delas \u00e9 bem similar. Al\u00e9m disso, hoje em dia, tendo convivido com profissionais bem sucedidos que vivem de m\u00fasica ou dan\u00e7a, notei mais um ponto em comum entre Artes e Ci\u00eancias: a criatividade \u00e9 essencial em ambas, por\u00e9m sem disciplina e tenacidade n\u00e3o se chega a lugares interessantes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><em><strong>\u00a0Voc\u00ea \u00e9 vice-coordenadora do programa Gera\u00e7\u00e3o de Energia do CINE. Comente quais s\u00e3o os grandes objetivos e os principais desafios do programa na \u00e1rea de energia solar.<\/strong><\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Dentro do CINE, mais especificamente no bra\u00e7o de energia solar do programa Gera\u00e7\u00e3o de Energia, os principais desafios em que estamos atuando podem ser resumidos em tr\u00eas eixos:<\/p>\n<p dir=\"ltr\">&#8211; Compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos respons\u00e1veis pela degrada\u00e7\u00e3o nas c\u00e9lulas de perovskita, buscando o aumento do tempo de vida dessas c\u00e9lulas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">&#8211; Desenvolvimento de materiais e processos para confec\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas de maior \u00e1rea, ou minim\u00f3dulos, com tecnologia nacional.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">&#8211; Aumento da efici\u00eancia de convers\u00e3o de energia das c\u00e9lulas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Dentro do primeiro eixo, destaco as pesquisas realizadas pelo grupo da professora Ana Fl\u00e1via Nogueira, com emprego de t\u00e9cnicas envolvendo luz S\u00edncrotron, no Sirius, e experimentos in situ, as quais t\u00eam sido amplamente reconhecidas no cen\u00e1rio internacional como de grande contribui\u00e7\u00e3o ao avan\u00e7o do entendimento dos mecanismos que causam redu\u00e7\u00e3o de estabilidade da tecnologia de perovskitas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Dentro do segundo eixo, estamos investindo na busca por transformar conhecimento em produto \u2013 neste caso, buscando demonstrar a possibilidade de fazer uma c\u00e9lula solar de perovksita com uso de insumos nacionais, e processos escal\u00e1veis de baixo custo, na busca por rotas de fabrica\u00e7\u00e3o que possam ser de interesse da ind\u00fastria nacional, envolvendo baixo CAPEX e OPEX.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">J\u00e1 no terceiro eixo, entre as abordagens empregadas na busca por aumento da gera\u00e7\u00e3o de energia dessas c\u00e9lulas, destaco o uso de gerenciamento de f\u00f3tons (ou seja, uso de materiais conversores ascendentes ou descendentes de energia, e o uso de quantum dots) para ajustar o aproveitamento da luz absorvida pela perovskita, buscando assim aumentar a quantidade de el\u00e9trons gerados pelo dispositivo. Outra abordagem de destaque \u00e9 o uso da t\u00e9cnica de evapora\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica para deposi\u00e7\u00e3o da camada de perovskita, a qual deve possibilitar a forma\u00e7\u00e3o de filmes com menor quantidade de defeitos nos contornos de gr\u00e3os e nas interfaces, possibilitando, assim, maior reprodutibilidade entre os dispositivos e maior gera\u00e7\u00e3o de corrente el\u00e9trica.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Acredito que as pesquisas realizadas no CINE carregam oportunidades reais para capacitar nosso pa\u00eds em diferentes \u00e1reas tecnol\u00f3gicas de relev\u00e2ncia, tanto para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica quanto para a soberania, inclusive com possibilidades de customizar solu\u00e7\u00f5es para melhor atender as demandas nacionais.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jilian Nei de Freitas era ainda uma estudante de gradua\u00e7\u00e3o da UNICAMP quando tomou decis\u00f5es que direcionaram a sua trajet\u00f3ria profissional. 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