{"id":12859,"date":"2026-03-14T16:24:25","date_gmt":"2026-03-14T19:24:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cine.org.br\/?p=12859"},"modified":"2026-03-17T19:11:52","modified_gmt":"2026-03-17T22:11:52","slug":"entrevistas-com-nossos-pesquisadores-lucia-mascaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cine.org.br\/pb\/entrevistas-com-nossos-pesquisadores-lucia-mascaro\/","title":{"rendered":"Entrevistas com nossos pesquisadores: Lucia Mascaro"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Lucia Helena Mascaro Sales faz parte do grupo minorit\u00e1rio de mulheres cientistas que atingiram os n\u00edveis mais altos da carreira acad\u00eamica. Movida por uma paix\u00e3o infind\u00e1vel pelo conhecimento e pela convic\u00e7\u00e3o de que a ci\u00eancia n\u00e3o tem g\u00eanero, ela acabou conquistando posi\u00e7\u00f5es de destaque em entidades nacionais e internacionais.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Lucia fez gradua\u00e7\u00e3o (1984), mestrado (1988) e doutorado (1992) em Qu\u00edmica na UFSCar. Depois de atuar como pesquisadora de p\u00f3s-doutorado no Instituto de Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos da Universidade de S\u00e3o Paulo (IQSC-USP), ela se tornou, em 1998, professora da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR).<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2003, voltou \u00e0 sua \u201calma mater\u201d como professora. Na UFSCar, ela coordenou o curso de Licenciatura em Qu\u00edmica de 2008 a 2013 e o Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Qu\u00edmica de 2016 a 2019. Em 2017, chegou ao cargo de professora titular.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2018, no in\u00edcio do CINE, come\u00e7ou a atuar como pesquisadora no desenvolvimento de materiais para a produ\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio por eletr\u00f3lise &#8211; tema no qual j\u00e1 trabalhava desde 1994. Em 2024, assumiu a posi\u00e7\u00e3o de vice-coordenadora do programa\u00a0<em>Low-Carbon Hydrogen<\/em>\u00a0(LCH2) do CINE.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tamb\u00e9m em 2024, Lucia Mascaro ganhou o Pr\u00eamio \u201cMulheres Brasileiras na Qu\u00edmica\u201d, da\u00a0<em>American Chemical Society<\/em>\u00a0(ACS) e a Sociedade Brasileira de Qu\u00edmica (SBQ), na categoria \u201cLideran\u00e7a na Academia\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2025, a cientista brasileira foi eleita vice-presidente da\u00a0<em>International Society of Electrochemistry<\/em>\u00a0(ISE), sociedade cient\u00edfica com 76 anos de exist\u00eancia, com mais de 3.000 s\u00f3cios de cerca de 70 pa\u00edses<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em fevereiro de 2026, a cientista assumiu o mandato de membro do Conselho Superior da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (FAPESP), uma das principais ag\u00eancias de fomento do Brasil. Lucia foi nomeada pelo governador de S\u00e3o Paulo, que a escolheu a partir de uma lista tr\u00edplice, constru\u00edda com a participa\u00e7\u00e3o de 385 eleitores de 25 institui\u00e7\u00f5es de ensino superior e pesquisa do estado.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Lucia Mascaro \u00e9 autora de mais de 200 artigos cient\u00edficos publicados em peri\u00f3dicos indexados e de 13 cap\u00edtulos de livros, al\u00e9m de ter orientado dezenas de trabalhos de pesquisa de estudantes de todos os n\u00edveis e de p\u00f3s-doutorandos. Ela \u00e9 bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq no n\u00edvel 1B.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nesta entrevista, a professora Lucia conta como encontrou o seu lugar na ci\u00eancia, reflete sobre as desigualdades de g\u00eanero no meio acad\u00eamico e explica de que maneira o CINE est\u00e1 ajudando a desenvolver a ind\u00fastria do hidrog\u00eanio de baixa emiss\u00e3o de carbono no Brasil.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Conte-nos como voc\u00ea se tornou uma cientista.<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Conto isto entremeando com fatos pessoais, porque n\u00e3o vejo como dissociar completamente carreira e vida. Ambas nos moldam e influenciam os caminhos que tra\u00e7amos, algumas vezes por escolha e outras por necessidade, mas sempre caminham juntas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nasci em uma cidade muito pequena, Ribeir\u00e3o Bonito, em uma fam\u00edlia na qual ningu\u00e9m havia cursado o ensino superior. Por isso, n\u00e3o tive contato direto com o meio acad\u00eamico ou com a ci\u00eancia durante a inf\u00e2ncia. Ainda assim, sempre gostei muito de estudar e de ler, e, aos 12 anos, quando perdi repentinamente meu pai, passei a ver o estudo como uma forma de dar continuidade ao que ele sempre me ensinou. Foi nessa fase que comecei a dar meus primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No ensino m\u00e9dio, ao ter contato com a Qu\u00edmica, me apaixonei pela \u00e1rea e decidi que era aquilo que queria fazer, mesmo sem nunca ter entrado em um laborat\u00f3rio. Pouco tempo depois, minha m\u00e3e e eu nos mudamos para S\u00e3o Carlos e, em agosto de 1981, ingressei no curso de Qu\u00edmica da UFSCar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Desde ent\u00e3o, nunca mais deixei de buscar conhecimento em uma \u00e1rea na qual sempre me senti muito bem. Durante a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o mestrado, o doutorado e o p\u00f3s-doutorado, muitas vezes duvidando se eu era capaz, percebi que poderia, sim, fazer parte daquele mundo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Com o tempo, a transi\u00e7\u00e3o de qu\u00edmica para pesquisadora ocorreu de forma natural. A\u00a0paix\u00e3o pelo conhecimento encontrou na pesquisa o espa\u00e7o ideal para desenvolver ideias e, principalmente, contribuir para a forma\u00e7\u00e3o de novas pessoas. Ingressei como docente na UFPR em 1998, e em 2003 retornei \u00e0 UFSCar. Em 2013 realizei um per\u00edodo de pesquisa na Universidade de Bath, no Reino Unido, e em\u00a02017 tornei-me professora titular. Hoje posso dizer que minha realiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 justamente na uni\u00e3o entre ser qu\u00edmica, pesquisadora e professora.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Quando e como voc\u00ea come\u00e7ou a atuar na \u00e1rea de energias renov\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Desde a minha inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica trabalho com s\u00edntese e desenvolvimento de materiais, principalmente obtidos por t\u00e9cnicas eletroqu\u00edmicas como a eletrodeposi\u00e7\u00e3o. Estudei a aplica\u00e7\u00e3o destes materiais em diferentes sistemas, incluindo prote\u00e7\u00e3o contra corros\u00e3o, baterias, sensores e processos eletrocatal\u00edticos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Durante meu p\u00f3s-doutorado no Instituto de Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos (IQSC-USP), em 1994, tive a oportunidade de trabalhar com o professor Avaca, que utilizava eletrodeposi\u00e7\u00e3o de ligas met\u00e1licas para estudar a eletr\u00f3lise da \u00e1gua e a produ\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio. Foi nesse momento que comecei a me envolver diretamente com o tema da produ\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio e com o desenvolvimento de catalisadores obtidos por m\u00e9todos de baixo custo e potencialmente escal\u00e1veis, utilizando metais abundantes e n\u00e3o nobres.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Continuei desenvolvendo essa linha de pesquisa durante minha atua\u00e7\u00e3o na UFPR e posteriormente na UFSCar, com projetos financiados pelo CNPq e pela FAPESP, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o no Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), tamb\u00e9m voltado a materiais e energia. Com o avan\u00e7o das discuss\u00f5es globais sobre transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e sustentabilidade, essa \u00e1rea ganhou ainda mais relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2017 fui convidada a integrar o CINE, no projeto financiado pela FAPESP em parceria com a Shell, inicialmente como pesquisadora associada ao programa DEC (<em>Dense Energy Carriers<\/em>). Ao longo dos anos, o trabalho com hidrog\u00eanio e energias renov\u00e1veis se consolidou dentro do grupo. Atualmente, participo da segunda fase do projeto do CINE como vice-coordenadora (<em>Co-PI<\/em>) no programa de hidrog\u00eanio de baixo carbono e lidero o projeto de eletr\u00f3lise alcalina da \u00e1gua. Nesta etapa buscamos n\u00e3o apenas desenvolver novos materiais, mas tamb\u00e9m test\u00e1-los em prot\u00f3tipos de laborat\u00f3rio, aproximando a pesquisa de aplica\u00e7\u00f5es reais e avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o a n\u00edveis mais altos de maturidade tecnol\u00f3gica (TRL).<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Voc\u00ea considera que foi mais dif\u00edcil desenvolver sua carreira por ser mulher? Percebeu mudan\u00e7as ao longo do tempo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade de g\u00eanero na ci\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o diria que foi necessariamente mais dif\u00edcil desenvolver minha carreira por ser mulher, mas acredito que os degraus costumam ser mais largos para n\u00f3s.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Muitas vezes \u00e9 preciso dar mais passos para alcan\u00e7ar o mesmo patamar que um homem alcan\u00e7a com menos etapas. Na pr\u00e1tica, isso significa que, em diversas situa\u00e7\u00f5es, o reconhecimento pode vir mais lentamente para as mulheres, mesmo quando o trabalho realizado \u00e9 equivalente ou at\u00e9 maior. H\u00e1 muitos exemplos e estat\u00edsticas que mostram esse cen\u00e1rio; basta observar, por exemplo, o tempo m\u00e9dio que mulheres levam para atingir n\u00edveis mais altos de reconhecimento acad\u00eamico, como o n\u00edvel 1A da bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ao mesmo tempo, seria inver\u00eddico dizer que nunca enfrentei situa\u00e7\u00f5es em que atitudes de colegas tenham tido um vi\u00e9s mis\u00f3gino ou machista. No entanto, esses epis\u00f3dios nunca diminu\u00edram minha vontade de seguir na ci\u00eancia. Sempre digo que n\u00e3o tenho problema algum em ser mulher no meu trabalho; o problema est\u00e1, muitas vezes, na vis\u00e3o de quem ainda acredita que possa existir alguma diferen\u00e7a de capacidade ou desempenho em fun\u00e7\u00e3o do g\u00eanero.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pode-se dizer que se tem buscado mudan\u00e7as nas \u00faltimas d\u00e9cadas, tanto do ponto de vista cultural quanto institucional. Hoje existe maior conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da igualdade de oportunidades na ci\u00eancia e mais iniciativas voltadas para ampliar a participa\u00e7\u00e3o das mulheres. No entanto, ainda h\u00e1 desafios significativos. As estat\u00edsticas mostram que, embora as mulheres sejam maioria em muitos cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, sua presen\u00e7a diminui nos n\u00edveis mais altos da carreira cient\u00edfica. Por isso considero fundamental que mulheres estejam presentes em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a e participem ativamente das discuss\u00f5es sobre igualdade de oportunidades na ci\u00eancia. Tamb\u00e9m \u00e9 importante dar visibilidade a essas quest\u00f5es e mostrar, sobretudo para as novas gera\u00e7\u00f5es, que a ci\u00eancia n\u00e3o tem g\u00eanero.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A ci\u00eancia \u00e9 constru\u00edda por pessoas capazes, comprometidas com o conhecimento, com o trabalho coletivo e com o respeito. Para isso, \u00e9 essencial um ambiente acad\u00eamico mais justo, diverso e inclusivo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Desde agosto de 2024, o Brasil tem uma lei (14.948) que define regras e benef\u00edcios para estimular a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio de baixa emiss\u00e3o de carbono no pa\u00eds. De que maneira o CINE, particularmente o programa LCH2, pode ajudar o pa\u00eds a avan\u00e7ar nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A Lei 14.948 foi um marco regulat\u00f3rio importante para o desenvolvimento dessa nova produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio de baixa emiss\u00e3o de carbono no pa\u00eds. Nesse contexto, o CINE, por meio do programa LCH2, contribui em diferentes frentes. Uma delas \u00e9 o avan\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, com pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos catalisadores obtidos por t\u00e9cnicas de s\u00edntese simples e ambientalmente amig\u00e1veis, al\u00e9m do aprofundamento do entendimento da ci\u00eancia fundamental que governa esses sistemas. Tamb\u00e9m buscamos avan\u00e7ar no conhecimento de tecnologias j\u00e1 consolidadas ou em fase de desenvolvimento, como \u00e9 o caso dos eletrolisadores do tipo AEM, contribuindo para torn\u00e1-los mais eficientes e vi\u00e1veis.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Outro aspecto central \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos altamente qualificados. O programa conta com um n\u00famero expressivo de bolsistas em todos os n\u00edveis, da gradua\u00e7\u00e3o ao p\u00f3s-doutorado. Muitos ex-bolsistas hoje atuam em empresas da \u00e1rea de hidrog\u00eanio ou integram grupos de pesquisa no exterior, o que demonstra o impacto da forma\u00e7\u00e3o realizada pelo programa LCH2 no \u00e2mbito do CINE. Al\u00e9m disso, o trabalho desenvolvido tem alcan\u00e7ado reconhecimento internacional, refletido no grande n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es e revistas cient\u00edficas de alto impacto na \u00e1rea de hidrog\u00eanio e energias renov\u00e1veis. Dessa forma, o CINE e, particularmente o LCH2, contribui n\u00e3o apenas para o avan\u00e7o do conhecimento, mas tamb\u00e9m para a consolida\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas essenciais para que o Brasil avance de forma s\u00f3lida na \u00e1rea de hidrog\u00eanio de baixa emiss\u00e3o de carbono.<\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucia Helena Mascaro Sales faz parte do grupo minorit\u00e1rio de mulheres cientistas que atingiram os n\u00edveis mais altos da carreira acad\u00eamica. Movida por uma paix\u00e3o infind\u00e1vel pelo conhecimento e pela convic\u00e7\u00e3o de que a ci\u00eancia n\u00e3o tem g\u00eanero, ela acabou conquistando posi\u00e7\u00f5es de destaque em entidades nacionais e internacionais. Lucia fez gradua\u00e7\u00e3o (1984), mestrado (1988) e doutorado (1992) em Qu\u00edmica na UFSCar. 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